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5.5.11

Eu passo demasiado tempo a lamentar e sofrer com coisas que não posso mudar


Acho este projecto o máximo.

Raparigas que lêem.

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

Rosemary Urquico

Daqui.

30.3.11

Segredo

"Era baixa, mas tão robusta e calma, como se o seu corpo conhecesse algum segredo. Como se escondesse algo nos ossos, no sangue, na carne, o segredo do tempo ou da vida, algo que não pode ser dito aos outros, que não pode ser traduzido para outra língua, porque as palavras não suportam esse segredo."

As velas ardem até ao fim, Sándor Márai


Conheço poucas pessoas assim.
Todas as outras parecem ter as suas tempestades interiores, melhor ou pior disfarçadas, mais ou menos assumidas.

Esta descrição faz-me pensar na tia A., perto de quem cresci. A minha mãe era toda nervosismos e preocupações, a casa impecável, frágil, e a minha tia era assim mesmo. Pequena, robusta e calma, com uma boa disposição e alegria que sempre achei misteriosas. Acho que continua a ser. Quando penso nela, vejo-lhe sempre as gargalhadas despudoradas e sinceras.
Este tipo de pessoas, genuinamente tranquilas, faz-me sempre sentir relaxada. Como se perto delas estivesse a salvo dos infortúnios. Absorvida por aquela paz com a vida.

Where there is no love

"For a crowd is not company, and faces are but a gallery of pictures, and talk but a tinkling cymbal, where there is no love."
Francis Bacon

25.3.11

24.3.11

Sólo intento tocarme la punta de los piés


Daqui.


Concerto de Cut Copy
seguido de
Resolver problemas no trabalho
seguido de
Passar a noite a sonhar com trabalho
seguido de
Acordar às 6h30 e não conseguir dormir mais
seguido de
Natação à hora de almoço

15.3.11

Mais uma pessoa, aqui

"é o que mais me falta nesta vida: paciência. saber esperar. aguardar. ansiar. entro em pânico porque não estou onde queria estar, na minha vida, por esta altura e oh-meu-deus-e-agora-e-agora-e-agora. céus, às vezes sou tão [inserir suspiro exasperado aqui e um ou outro impropério e invectiva contra a minha pessoa]. não é que não fizesse planos a longo prazo, sempre fiz, mas nunca dei os passos necessários para estes se começarem a encaixar. sempre fui muito do prazer imediato, da sofreguidão do momento, do curto e médio prazo. este ano estou a começar a tentar – hey, não podem dizer que não sou realista, “começar a tentar” é radicalmente diferente de “tentar”, ainda vem antes disso, é uma tentativa embrionária – dar esses passos para conseguir algumas das coisas que sempre quis e que vão demorar meses e meses. veremos. quantas pessoas haverá mais como eu por aqui?"

Daqui.

14.3.11

Moinhos de vento

"Ninguém escreve sobre amor quando está enamorado. Ninguém escreve sobre medo quando está assustado. E ninguém escreve sobre moinhos de vento quando está a lutar contra moinhos de vento. O escritor é o amo de um cão chamado ontem."
Ricardo Menéndez Salmón

Às vezes tenho a ideia de escrever sobre os medos, no momento em que os sinto. Escreve-los, palavra por palavra, sem filtros, e sem ler. Ler depois. Quando olho para trás e os medos não fazem sentido ou estão pequeninos.
Até chegarem todos novamente, em cavalos que espezinham o meu auto-domínio.

2.3.11

Anéis escuros no nosso interior

"Os peixes e as árvores assemelham-se.
Assemelham-se nos anéis. Se fizéssemos um corte horizontal numa árvore, veríamos os seus anéis no tronco. Um anel por cada ano transcorrido: é assim que se sabe a idade da árvore. Os peixes também têm anéis, mas nas escamas. E, da mesma forma que acontece com as árvores, graças a eles sabemos quantos anos tem o animal.
Os peixes nunca deixam de crescer. Nós não, nós minguamos a partir da idade madura. O nosso crescimento detém-se e os ossos começam a juntar-se. O corpo encolhe. Os peixes, porém, crescem até morrer. Mais depressa quando são jovens e, a partir de certa idade, mais lentamente, mas sem nunca deixarem de crescer. E por isso têm anéis nas escamas.
O anel dos peixes é criado pelo Inverno. O Inverno é a altura em que o peixe come menos e a fome deixa uma marca escura nas suas escamas, porque o seu crescimento é menor durante esta época. Ao contrário do que acontece no Verão. Quando os peixes não passam fome, não permanece qualquer rasto nas suas escamas.
O anel dos peixes é microscópico, não se vê à primeira vista, mas está lá. Como se fosse uma ferida. Uma ferida que não sarou bem. E, como os anéis dos peixes, os momentos mais difíceis vão marcando as nossas vidas, até se converterem na medida do nosso tempo. Os dias felizes, pelo contrário, passam depressa, demasiado depressa e, em seguida, desvanecem-se.
Aquilo que para os peixes é o Inverno, é a perda para as pessoas. As perdas delimitam o nosso tempo; o final de uma relação, a morte de um ser querido.
Cada perda é um anel escuro no nosso interior."
Os Dois Amigos, Kirmen Uribe

9.2.11

we can decide to see

our playful minds will run—scattering
in a thousand directions.
when we learn to guide our minds
skillfully
with determination and the help of friends on the path
we can decide
to look for and see
to listen for and hear
to know and feel
myriad MIRACLES
at hand right here
right now
with this breath.

Daqui.

8.2.11

Eu também quero ser como ele

"Hoje uso uma fotografia de Manuel Correia para contar um pequeno episódio eloquente do caracter de alguém que tenho como exemplo de vida, de generosidade e de bondade, alguém que amo com todo o coração, mas com quem nem sempre tenho um diálogo fácil. Falo do meu pai, que é uma das melhores pessoas que conheço, que consegue superar todas as barreiras e os obstáculos, transcendendo-se em cada dia. Como todos os bons pais, o meu está sempre atento aos filhos e cuida dos mais ínfimos detalhes. Por vezes exagera e nós reagimos. Neste fim-de-semana estávamos em família à lareira, mais ou menos calados, num daqueles serões em que uma filha lê, a outra conversa, os pais estão por ali e chega. De repente apeteceu-me engraxar as minhas botas e pedi-lhe a caixa de madeira com as graxas. Ele, igual a si próprio, trouxe tudo, mas foi-me dizendo que não devia fazer isso à noite, porque de dia se vê melhor e por aí adiante. E eu: "mas está-me mesmo a apetecer fazer isso agora, pai. Vá lá, não esteja sempre a dizer-me o que devo fazer, já não sou uma criança" (esta minha versão é muito chata, devo dizer. Tenho pena mas é verdade). E o meu pai a insistir: "de dia vê-se muito melhor, mas tu é que sabes." E eu, achando que sim que sabia, lá ia espalhando graxa nas botas de que mais gosto, que são pretas e uso quase todos os dias. Ele calado e eu também. Até que a luz das chamas fez rebrilhar uma cor esquisita na bota que eu estava mesmo a acabar de engraxar. De repente olhei e num sobressalto vi o desastre que acabara de acontecer: a bota estava impecavelmente engraxada de castanho! Nem queria acreditar. Olhei para o meu pai a tentar avaliar se ele estava a ver o mesmo que eu, mas ele continuava a ler o jornal aparentemente esquecido do nosso diferendo e da minha teimosia. Por breves segundos ainda pensei esconder as botas e fingir que estava tudo feito e bem feito, mas não fui capaz. Acabei por interromper a sua leitura. "Pai, tinha razão, olhe o que aconteceu: agora tenho uma bota preta e outra castanha!". E ele, sem me condenar, levantou os olhos do jornal e viu o que estava à vista. Não disse uma única palavra, nem lhe passou pela cabeça lembrar-me que me tinha avisado, e é essa a sua grande lição. Não só não condenou, como na manhã seguinte pegou no carro para me levar a uma drogaria da sua confiança para comprarmos uma graxa suficientemente forte e preta para apagar todos os vestígios de castanho. Lá fomos, mesmo em cima da hora do almoço e do fecho da drogaria, eu ainda relutante e meio chateada, ele com aquela atitude querida e verdadeiramente paternal de quem só está ali para ajudar. Comprou a super graxa preta, pagou tudo e viemos embora sem uma palavra de recriminação ou ironia. Grande pinta. Quando for crescida quero ser como ele."

Daqui.

Podia fazer vários comentários a este texto. Primeiro, que gosto muito da forma como a Laurinda Alves escreve: serena, pragmática sem deixar de ser emotiva e sensível, positiva, sincera. Também podia dizer que deve ser bom ter estes modelos e este conforto na família.

E que sei que é difícil esta gestão. A da forma como queremos estar ou ser, para os filhos. Queremos ser firmes, sem ser duros. Flexíveis, mas sem cair na permissividade excessiva. Amparar sem proteger demasiado, corrigir sem ser demasiado críticos.
E isto tudo com as nossas próprias emoções e fragilidades à flor da pele.
Acho que é um caminho que se faz todos os dias.

21.1.11

Ah!



Como eu admiro e invejo as pessoas que sabem desenhar.

19.1.11

Arrancar estacas

"Um dia perguntei ao meu Tio Lancastre porque é que algumas mulheres, sendo tão poderosas, não saíam do mesmo registo, não evoluíam para um nível de sabedoria superior, mostravam-se capazes de tantas decisões difíceis e tão incapazes para resolver questões menores. O meu Tio Lancastre meteu-me no seu velho Bentley Continental e levou-me a um circo. O elefante estava cá fora, tinha uma pata amarrada por uma corda e a corda estava presa a uma pequena estaca. O meu Tio Lancastre perguntou-me se eu já alguma vez tinha questionado por que razão o elefante, forte e poderoso, não escapava, afinal não lhe devia ser difícil arrancar a estaca. E explicou-me que aquela estaca era a mesma desde o tempo em que o elefante era ainda jovem. Nessa altura o elefante tentara libertar-se mas não tivera força suficiente para arrancar a estaca. Com o tempo, o elefante tinha interiorizado que não era possível arrancar a estaca e hoje seria capaz de arrancar árvores, mas nem sequer tentava arrancar a pequena estaca.

Eu percebi à primeira o que o meu Tio Lancastre me estava a dizer."

Daqui.

18.1.11

Resolver

"- Os desentendimentos fazem parte da vida e das relações. Em casal, em família, no trabalho ou no grupo de amigos há sempre desencontros, desentendimentos. Se as pessoas se desentendem, mas depois conseguem reencontrar-se, ficam mais perto umas das outras do que antes de se terem desentendido. E quem havia de dizer que o amor cresce assim? E que o entendimento se reforça desta maneira? E que a qualidade do relacionamento aumenta assim, também? Digo e repito: ninguém evolui em linha recta, seja no percurso pessoal ou nas suas relações.

- É muito iluminante olhar para a vida assim, porque muitas pessoas acham que os desentendimentos equivalem a descer alguns degraus e a perder qualidade na relação...

- Não é verdade. Se aprendem a superar os desentendimentos, sobem uns degraus e ganham em qualidade, não tenha dúvidas. A qualidade de uma relação mede-se pela capacidade de superação dos conflitos. Esse é o maior e o melhor critério".

Daqui.

17.12.10

Aquilo que se deseja

O celibato é «involuntário». Quase toda a gente prefere alguém a ninguém. Mas também é «voluntário». Quase toda a gente teria alguém se quisesse. Um celibatário vive de acordo com aquilo que escolhe, mas não com aquilo que deseja.

Pedro Mexia

14.12.10

Às vezes

A veces ella y yo
vamos juntos al mar
para vernos vivir en el agua.
A veces ella y yo peregrinamos
por la arena
y agradecemos sin palabras
el aire que nos respira
en cada instante.
A veces ella y yo
permanecemos largo rato
frente a las olas,
dando las gracias
a la luz con los ojos cerrados.




Tão bonito.
Daqui.

26.11.10

3º ao sol


E eu só pensava nas golas/capuz da Rita.

19.11.10

Não sabiam o seu lugar


Os sapatos eram apertados
Tão apertados
Que as pernas pararam,
Deixaram de funcionar
O corpo deixou de ser corpo.
O coração,
O cérebro,
As entranhas,
Caíram aos pés
E lá ficaram
Todos em revolta.
Andavam aos encontrões
Ensarilhavam-se uns nos outros
Não sabiam em que sítio se colocar
Não sabiam o seu lugar.

Daqui.