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14.3.11

Moinhos de vento

"Ninguém escreve sobre amor quando está enamorado. Ninguém escreve sobre medo quando está assustado. E ninguém escreve sobre moinhos de vento quando está a lutar contra moinhos de vento. O escritor é o amo de um cão chamado ontem."
Ricardo Menéndez Salmón

Às vezes tenho a ideia de escrever sobre os medos, no momento em que os sinto. Escreve-los, palavra por palavra, sem filtros, e sem ler. Ler depois. Quando olho para trás e os medos não fazem sentido ou estão pequeninos.
Até chegarem todos novamente, em cavalos que espezinham o meu auto-domínio.

10.11.10

Do medo

Sei que o medo nos prepara, nos protege e nos obriga a reagir, a estar atentos. Sei isso tudo. Mas o medo pode ser das coisas boas. Das coisas das quais não temos que nos proteger, defender, estar atentos. E o que fazer, então? Quando o medo surge nos momentos inoportunos em que não há necessidade de fuga e protecção? Quando nos encolhemos ao toque amigo e doce, quando pretendemos fugir dos abraços e dos beijos, quando nos assusta o que nos ampara e protege. Eu não sei vencer o medo que não entendo racionalmente, que não traz uma ameaça palpável a que se aponta o dedo, que acusamos, que podemos mostrar aos outros, "Vês, está aqui!". Suponho que o medo das coisas boas precisa de ser tratado como uma criança medrosa e confusa, a crescer: com paciência e calma e tolerância. E sabendo que um dia, só porque o tempo passou, tudo vai ser diferente.

2.9.10

Medos.

A primeira vez que tive um ataque de pânico foi avassaladora.

Vinha a experimentar alguma ansiedade meio inexplicável, no sentido de me parecer exagerada ou desadequada, e um dia o sentimento agravou-se. Acho que foi de noite, porque me lembro do quarto escuro e de como a noite se tornou um sítio assustador a partir desse momento, e durante muito tempo. Acho que me deitei já a sentir-me pouco tranquila e o medo tornou-se galopante, enquanto o M. adormecia ao meu lado. É uma aflição difícil de descrever. Sentia-me dominada por um pavor sem motivo. Sabia que havia uma ameaça, mas não sabia qual era. Lembro-me que pensei que ia morrer. Aliás, na altura, morrer seria até uma espécie de alívio, porque seria o fim daquilo. Lembro-me de o ter pensado, tendo consciência de como o pensamento era estranho. Pensei em acordar o M., pedir ajuda. Mas pedir ajuda para quê? Dizer o quê? Estou com medo, muito medo. Do quê? Não sei. Como dizê-lo? Senti que estava totalmente sem controlo e desiquilibrada. Não conseguia parar os pensamentos. Na minha angústia, pensei em ir para o hospital e pedir que me calassem a cabeça, por favor. Que parassem aquilo. Lembro-me de vaguear ao lado da cama, o quarto escuro, sem saber que fazer. Achei que estava a ficar maluca, que tinha perdido o juízo, que tinha entrado num caminho estranho e que nunca mais ia conseguir sair dali.
Lembro-me de ter pensado que não ia conseguir trabalhar ou cuidar dos meus filhos.
Os pensamentos assustadores sucediam-se e puxavam uns pelos outros, cada vez maiores e mais poderosos.

Não me lembro como acabou, mas nessa noite perdi qualquer coisa que ainda não recuperei. Uma espécie de segurança. Foi como se tivesse descoberto uma ameaça aterradora que até aí desconhecia. Dentro de mim.

Hoje voltei a essa noite.
Uma noite de cada vez.