"Desde que nasceram que temos um ritual nas viagens de carro: eu estendo a mão para o banco de trás e eles agarram-me a mão, à vez, às vezes rindo outras nada dizendo. Eles sabem. Quero aquelas mãos nas minhas, pelas tantas viagens que vamos fazer pela vida fora. Aquelas mãos nas minhas são a vida. Ser Pai faz de mim uma pessoa melhor, a cada dia. "
Daqui.
Tal e qual.
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15.4.11
11.4.11
Tum tum. Tum tum. Tum tum.
A saudade é um bicho estranho, que faz chorar e rir ao mesmo tempo ou Vou ver os meus filhos quando sair do trabalho e não os vejo desde sexta.
7.4.11
Filha macaquinha
O que fazer a uma criança que raspa a parte da frente e de cima dos sapatos no primeiro dia de uso, e vai afincadamente retirando novas camadas de sapato a cada dia que passa?
À criança dá-se muitos beijinhos por ela brincar com tanta alegria.
Os sapatos levam regularmente uma boa camada de graxa, para salvar as aparências.
À criança dá-se muitos beijinhos por ela brincar com tanta alegria.
Os sapatos levam regularmente uma boa camada de graxa, para salvar as aparências.
4.4.11
Maternidade
Desafio #238 da minha maternidade: ensinar o filho a andar de patins.
Eu não sei andar de patins.
Eu não sei andar de patins.
22.3.11
Ontem
Depois de um fds cheio de pressas e angústias várias e tanta, tanta gente, chegámos ontem a casa, os três, e quebrámos todas as regras: fomos buscar os restos dos doces ao frigorífico, cada um escolheu o seu e comemo-los sem pressas quase em cima da hora de jantar. E depois ainda vimos os presentes recebidos por ambos, contámos histórias e lemos histórias e abraços e beijos no sofá.
Só depois os banhos e jantar e dentes e tudo.
Ah.
Só depois os banhos e jantar e dentes e tudo.
Ah.
7 anos e sapatos 32
No próximo aniversário rapto-a, e festejamos só nós.
(As festas de aniversário conseguem ser ocasiões muito desgastantes)
(As festas de aniversário conseguem ser ocasiões muito desgastantes)
9.3.11
Dores
Estamos sentados a comer torradas (uma quantidade desmesurada de torradas), eles correm para dar pedacinhos aos pássaros e, de repente, vejo-o vir na minha direcção agarrado à cabeça, a chorar, aquele chorar que indica problemas, e eu já a levantar-me, que bem sei que ele não chora por dá cá aquela palha, e quando olho, está cheio de sangue na orelha e olho melhor e nem quero acreditar, como é que fez aquilo, falta ali um bocadinho, não admira que chore tanto. A irmã vem logo a seguir, a chorar de aflição do choro dele (é sempre assim, fica aflita, aflita), e eu a pedir-lhe que se sente, a levá-lo para a casa-de-banho. Estou toda a tremer por dentro, deito-lhe água fria para a orelha, sempre a dizer "oh meu amor", e ele a chorar, a pedir para parar, e depois agarro num papel e tento parar aquela sangria, acalma-te, a filha sozinha na esplanada a chorar, penso, tum tum tum tum, tenho que pagar a conta, tum tum tum tum, levá-lo a um hospital?, tum tum tum tum, ligar ao M. a saber, que acha, tum tum tum tum.
E ele já está mais calmo, o sangue já parou, diz que já não dói tanto, ela também já não chora e eu ainda Tum tum tum tum.
E agora mesmo, quando escrevo, só de me lembrar, Tum tum tum tum.
E ele já está mais calmo, o sangue já parou, diz que já não dói tanto, ela também já não chora e eu ainda Tum tum tum tum.
E agora mesmo, quando escrevo, só de me lembrar, Tum tum tum tum.
1.3.11
A miúda sentada na cadeira, os olhos cheios de medo
Foi ao dentista porque o segundo dente, o novo, nasceu atrás do primeiro, o velho. Estavam ali os dois alinhados há semanas e por semanas ficariam, segundo parecia.
Tentei explicar-lhe antes, no carro, que não lhe podia dizer o que ia acontecer, porque a dentista é que ia decidir o que se fazia ao dente. Pareceu-me um pouco ansiosa, mas não demasiado. Aquela ansiedade que vem com o que não se conhece.
Já na cadeira de dentista, deitadinha, o medo foi crescendo e fechou-lhe a boca bem fechada, ela que passa o tempo a mostrar o dente a toda a gente, a incliná-lo para a frente mesmo apesar dos meus protestos (Ai, não faças isso!). E a dentista a fazer piadolas, e a assistente a fazer piadolas e até o M. a fazer piadolas, e eu a ver-lhe os olhos a pedir-me socorro, eu irritada com as piadolas, que bem sei que do que precisamos quando temos medo não é de piadas, mas sem saber como a tranquilizar no meio de tantas vozes que já o tentam fazer. Que não se preocupe, que não vão fazer nada, que ninguém ali arranca dentes! Aperto-lhe a perna e sorrio-lhe e pisco-lhe o olho com confiança, arrisco uma desdramatização, em tom sereno, que não se preocupe não dói nada, mas sei que neste ponto já não há muito a fazer. Que o medo se lhe agarrou aos maxilares comprimidos e não vai sair.
Eventualmente aquela pequena tortura acaba e o dente sai, ela já se ri, já salta, já pula, já se esqueceu, da próxima já sabe que não custa assim tanto, até que vem a pergunta que eu temia:
"Ó mamã, porque é que a dentista disse que não ia arrancar dente nenhum e depois me arrancou o dente?"
Pois.
Tentei explicar-lhe antes, no carro, que não lhe podia dizer o que ia acontecer, porque a dentista é que ia decidir o que se fazia ao dente. Pareceu-me um pouco ansiosa, mas não demasiado. Aquela ansiedade que vem com o que não se conhece.
Já na cadeira de dentista, deitadinha, o medo foi crescendo e fechou-lhe a boca bem fechada, ela que passa o tempo a mostrar o dente a toda a gente, a incliná-lo para a frente mesmo apesar dos meus protestos (Ai, não faças isso!). E a dentista a fazer piadolas, e a assistente a fazer piadolas e até o M. a fazer piadolas, e eu a ver-lhe os olhos a pedir-me socorro, eu irritada com as piadolas, que bem sei que do que precisamos quando temos medo não é de piadas, mas sem saber como a tranquilizar no meio de tantas vozes que já o tentam fazer. Que não se preocupe, que não vão fazer nada, que ninguém ali arranca dentes! Aperto-lhe a perna e sorrio-lhe e pisco-lhe o olho com confiança, arrisco uma desdramatização, em tom sereno, que não se preocupe não dói nada, mas sei que neste ponto já não há muito a fazer. Que o medo se lhe agarrou aos maxilares comprimidos e não vai sair.
Eventualmente aquela pequena tortura acaba e o dente sai, ela já se ri, já salta, já pula, já se esqueceu, da próxima já sabe que não custa assim tanto, até que vem a pergunta que eu temia:
"Ó mamã, porque é que a dentista disse que não ia arrancar dente nenhum e depois me arrancou o dente?"
Pois.
28.2.11
Segunda-feira
A minha filha tem lombrigas.
Eu achava que os piolhos seriam as criaturas bichosas mais nojentas com que teria que lidar, mas afinal não. É a tal coisa: pode sempre piorar. Começo o dia a ler coisas que não queria ler, e vou acabá-lo com um comprimido desparasitante no bucho, não vá o diabo tecê-las.
Bem sei que é tudo normal e vulgar e as crianças.
Mas já viram fotografias de lombrigas? Pois. Nojo.
Eu achava que os piolhos seriam as criaturas bichosas mais nojentas com que teria que lidar, mas afinal não. É a tal coisa: pode sempre piorar. Começo o dia a ler coisas que não queria ler, e vou acabá-lo com um comprimido desparasitante no bucho, não vá o diabo tecê-las.
Bem sei que é tudo normal e vulgar e as crianças.
Mas já viram fotografias de lombrigas? Pois. Nojo.
24.2.11
Restos não são uma alimentação saudável
A ver se os meus filhos começam a comer umas feijoadas ou uns refogados de legumes, para eu não ter que comer massinhas com peixinho ao almoço.
11.2.11
Pais
Liga-me bem cedo, a pedir-me para não telefonar à mãe, para não a acordar. Conta-me, em tom de desabafo, que teve que a levar para o hospital a meio da noite e chegaram a casa quase de manhã. Que lhe deu o pequeno-almoço e a deitou. Assim, num tom de intimidade que poucas vezes conseguimos ter.
O meu pai é ríspido e duro e autoritário, foi sempre assim. Sei que gosta de mim, pois claro, mas senti poucas vezes esta coisa do cuidar e proteger, era sempre mais o ralhar e exigir.
É injusto quando cada um dos pais tem papéis distintos no educar, acho. Para ambos devia haver espaço para a disciplina e para o carinho. Suponho que tenha sido em parte uma questão cultural, mas neste caso também uma questão de feitio.
Tenho pena, porque quando era miúda, não lhe conseguia adivinhar o carinho e a preocupação por trás dos ralhetes e das palavras duras. Agora sim. Mas antes...
É por isto, suponho, que me custam tanto as palavras duras que eu própria digo aos meus filhos. Mesmo que haja também espaço ao carinho e à compreensão. Não as consigo evitar, porque são necessárias, como os mimos, mas arranham-me a sair pela garganta.
Carregam tanta coisa, as palavras.
O meu pai é ríspido e duro e autoritário, foi sempre assim. Sei que gosta de mim, pois claro, mas senti poucas vezes esta coisa do cuidar e proteger, era sempre mais o ralhar e exigir.
É injusto quando cada um dos pais tem papéis distintos no educar, acho. Para ambos devia haver espaço para a disciplina e para o carinho. Suponho que tenha sido em parte uma questão cultural, mas neste caso também uma questão de feitio.
Tenho pena, porque quando era miúda, não lhe conseguia adivinhar o carinho e a preocupação por trás dos ralhetes e das palavras duras. Agora sim. Mas antes...
É por isto, suponho, que me custam tanto as palavras duras que eu própria digo aos meus filhos. Mesmo que haja também espaço ao carinho e à compreensão. Não as consigo evitar, porque são necessárias, como os mimos, mas arranham-me a sair pela garganta.
Carregam tanta coisa, as palavras.
10.2.11
33
Aos 33, ralho com a geração que me sucede ("Filho, mas tens que comer a sopa!"),e com a que me criou ("Ó mãe, mas tu tens que ir ao médico!").
Sou uma pessoa que ralha. Humpf.
Sou uma pessoa que ralha. Humpf.
19.1.11
De como (ou As agruras de uma mãe separada)
um acontecimento muito bom e um acontecimento menos bom podem resultar num acontecimento mesmo nada bom: os filhos a chegar na sexta e eu acho que estou a ser atingida pela virose que anda aí a dizimar multidões.
(Dores de garganta, no corpo e sensação permanente de frio)
(Dores de garganta, no corpo e sensação permanente de frio)
17.1.11
É que não vale mesmo a pena tentar explicar.
"A maior sacanice que nós pais fazemos aos que estão para ser pais é não lhes explicar com todas as letras como será difícil, como haverá momentos muito maus em que nos passará pela cabeça atirar aquele bebé pela janela porque não se cala há mais de 2 horas. que haverá momentos em que o cansaço pelas noites mal dormidas, pelos dias em que deixamos de existir para nos tornarmos capachos de todas as pequenas necessidades deles e por tudo o resto e que esses dias serão muitos. que ansiaremos pelo dia em que possam ir à casa de banho sozinhos para não mudar fraldas a meio da noite e choraremos no dia em que isso acontecer porque já não temos um bebé. que deixaremos de ser nós, seguros, adultos, tranquilos, sedutores para nos tornarmos num poço de lamechice e cansaço que ninguém [muito menos os que não têm filhos] consegue aturar. que muitas vezes nos questionaremos sobre a opção que foi tê-los mas enxotaremos essa ideia como se fossemos assassinos só por a termos pensado. que mudaremos para sempre, nunca mais seremos despreocupados e livres na totalidade e que nunca mais voltaremos a pensar em nós próprios primeiro. que isto é na sua essência bom mas pesa como o raio.
são coisas que não se podem explicar e que aqueles que estão para ser pais vão acabar por sentir na pele, por isso, nem vale a pena."
Daqui.
são coisas que não se podem explicar e que aqueles que estão para ser pais vão acabar por sentir na pele, por isso, nem vale a pena."
Daqui.
13.1.11
Ser criança
Não queria ter que começar a pedir autorização para tudo, lavar os dentes e ir para a cama ou usar bata, mas invejo tanto a capacidade das crianças de esquecer e avançar.
Num momento estão a gritar connosco, que somos más, feias, que só os castigamos, e no minuto a seguir está tudo bem, beijinhos e abraços. Como é que se faz? É que eu não consigo.
Num momento estão a gritar connosco, que somos más, feias, que só os castigamos, e no minuto a seguir está tudo bem, beijinhos e abraços. Como é que se faz? É que eu não consigo.
11.1.11
Ano novo, vida nova
É aproveitar a pedalada para tentar mudar pequenas coisas.
Comecei pela rotina com os miúdos: fazer tudo mais devagar. Deitam-se mais tarde, paciência. Já que quanto ao stress do início do dia nada feito (a filha tem que chegar a horas e pronto), vou tentar reduzir o stress do final do dia (chegar, banhos, pijama, comer, lavar dentes, dormir).
Hoje houve tempo para eles fazerem desenhos antes de jantar e eu tricotar mais um bocado do meu mais recente projecto, um cachecol quase branco. Foi bom. Cada um no seu cantinho, eles a mostrarem-me os desenhos todos orgulhosos, a perguntar do meu cachecol, a televisão desligada, bom, bom.
E agora também há sempre uma história já na cama. É uma espécie de final feliz para o nosso dia. Quando se conta uma história não há zangas, não há birras, não há pressas. Todos apreciamos o momento, damos beijinhos no final e eu acabo com o coração quentinho e reconfortado.
E isso é TÃO importante.
(Só quem tem filhos consegue perceber a enorme fonte de frustração que pode ser lidar com eles)
Comecei pela rotina com os miúdos: fazer tudo mais devagar. Deitam-se mais tarde, paciência. Já que quanto ao stress do início do dia nada feito (a filha tem que chegar a horas e pronto), vou tentar reduzir o stress do final do dia (chegar, banhos, pijama, comer, lavar dentes, dormir).
Hoje houve tempo para eles fazerem desenhos antes de jantar e eu tricotar mais um bocado do meu mais recente projecto, um cachecol quase branco. Foi bom. Cada um no seu cantinho, eles a mostrarem-me os desenhos todos orgulhosos, a perguntar do meu cachecol, a televisão desligada, bom, bom.
E agora também há sempre uma história já na cama. É uma espécie de final feliz para o nosso dia. Quando se conta uma história não há zangas, não há birras, não há pressas. Todos apreciamos o momento, damos beijinhos no final e eu acabo com o coração quentinho e reconfortado.
E isso é TÃO importante.
(Só quem tem filhos consegue perceber a enorme fonte de frustração que pode ser lidar com eles)
2.12.10
30.11.10
Os momentos perfeitos duram segundos
Eu e ela sentadas no sofá, lado a lado. Eu a comer bolachas com leite e ela a beber leite com chocolate. No sofá, onde não se come. Cheias de sono. Dou-lhe um beijinho no cabelo e apetece-me chorar. Cheira a bebé.
"Vamos para a cama, mamã?"
"Vamos para a cama, mamã?"
30.4.10
6.4.10
Cuidado com a mãe
Estamos a chegar à escola, estou a enxotá-los na direcção da entrada, olho para um, olho para o outro, "Vamos lá!", impaciente, e de repente ouço a minha filha aos gritos, a fugir, um cão enorme e amigável a correr atrás dela, ela esbaforida, tropeça e cai com espalhafato no chão, o saco de bolachas para os amigos todo amarfanhado, as bolachas todas partidas, os gritos ainda, a dona do cão a chamá-lo. Levanto a filha chorosa, toda eu furiosa, a sacudir-lhe o pó da cara, "Minha senhora, tem que ter cuidado com o seu cão!", a sacudir-lhe o pó das calças, "Mas a criança não sabe se o cão morde ou não, minha senhora!", a ver se tem as mãos arranhadas, "Está aqui uma escola, há sempre crianças a chegar a esta hora, não pode ter o cão solto a correr atrás das crianças!", a sacudir-lhe o medo da cara, o pó da camisola, dos cabelos, o medo dela e o meu, coitadinha, tão pequenina, "Por favor, segure o cão!", furiosa, furiosa.
Quando me acalmo, já arrependida da vergonha e culpa da senhora do cão, a pensar que se calhar exagerei um pouco, coitada da senhora, tão atrapalhada, mas a minha filha a cair daquela maneira, os gritos, o medo, filhinha.
Qual cão, qual quê. Cuidado é com a mãe da criança em perigo.
(Transformo-me numa pessoa feroz)
Quando me acalmo, já arrependida da vergonha e culpa da senhora do cão, a pensar que se calhar exagerei um pouco, coitada da senhora, tão atrapalhada, mas a minha filha a cair daquela maneira, os gritos, o medo, filhinha.
Qual cão, qual quê. Cuidado é com a mãe da criança em perigo.
(Transformo-me numa pessoa feroz)
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